Geração Sanduíche: Navegando pela encruzilhada do cuidado familiar

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Fundadora do projeto Mães às Claras.

Eles são a espinha dorsal de muitas famílias, um pilar que sustenta dois mundos. A “geração sanduíche” ou “sandwich generation” é composta por adultos, tipicamente na sua meia-idade, que se encontram “espremidos” entre as exigências do cuidado dos seus filhos, ainda dependentes, e o apoio aos seus pais idosos ou doentes crónicos. Neste artigo explico a origem deste conceito, os desafios enfrentados por quem vive esta realidade e partilho uma série de dicas práticas, tanto para os indivíduos como para as empresas que podem e devem apoiar os seus colaboradores nesta fase complexa da vida.

O surgimento de um fenómeno social

O termo “geração sanduíche” foi cunhado em 1981 pela assistente social norte-americana Dorothy A. Miller. Neste caso, o termo não se refere a uma geração específica – como os Baby Boomers e os Millennials – mas a um fenómeno que pode afetar qualquer pessoa cujos pais e filhos precisem de apoio ao mesmo tempo.

Originalmente, descrevia mulheres na faixa dos 30 e 40 anos que cuidavam simultaneamente dos seus filhos e dos seus pais. O conceito surgiu num contexto de significativas mudanças demográficas e sociais:

  • o aumento da esperança média de vida;
  • o adiamento da idade de ter filhos;
  • e a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho.

Estes fatores convergiram para criar uma geração apanhada numa teia de responsabilidades duplas.

Hoje, o fenómeno é mais abrangente, afetando homens e mulheres, e estendendo-se por uma faixa etária mais ampla, geralmente entre os 40 e os 60 anos. A pressão económica, com filhos a permanecerem em casa por mais tempo, e o envelhecimento da população, que leva a um maior número de idosos a necessitar de cuidados, tornaram esta “sanduíche” uma realidade cada vez mais comum e premente na sociedade atual, incluindo em Portugal.

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Os desafios: um equilíbrio delicado

Viver nesta encruzilhada de cuidados acarreta um fardo considerável, que se manifesta em múltiplas frentes:

  • Sobrecarga Emocional e Psicológica: O stresse e a ansiedade são companheiros constantes. A preocupação com a saúde dos pais, as exigências dos filhos e as responsabilidades profissionais podem levar ao esgotamento (burnout), sentimentos de culpa e isolamento.

  • Pressão Financeira: As despesas duplicam. Há que suportar os custos com a educação e o sustento dos filhos, ao mesmo tempo que surgem novas despesas com a saúde, medicação e adaptação das casas para os pais idosos.

  • Impacto Físico: A falta de tempo para si próprio é uma queixa universal. O sono é frequentemente sacrificado, a alimentação pode ser descurada e a prática de exercício físico torna-se um luxo, resultando num desgaste físico notório.

  • Carreira Profissional em Risco: A gestão do tempo torna-se um quebra-cabeças. As faltas ao trabalho para acompanhar consultas médicas, a dificuldade de concentração e a incapacidade para assumir projetos mais exigentes ou viajar podem estagnar ou até mesmo prejudicar a progressão na carreira.

Em Portugal, este cenário é ainda agravado pela elevada percentagem de filhos únicos. Ao contrário de gerações anteriores, onde as responsabilidades do cuidado aos pais idosos eram frequentemente partilhadas por vários irmãos, muitos membros da geração sanduíche atual encontram-se sozinhos nesta tarefa. Sem ninguém com quem dividir as decisões, os custos financeiros, as idas ao médico ou simplesmente o peso emocional. Toda a carga logística e psicológica recai sobre uma única pessoa.

Esta solidão na prestação de cuidados intensifica de forma exponencial a pressão, o isolamento e o risco de esgotamento, tornando o equilíbrio ainda mais difícil de alcançar.

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Dicas para quem vive “entalado” nesta geração sanduíche

Se te encontras nesta situação, é fundamental adotares estratégias para gerir as múltiplas responsabilidades sem sacrificares o teu próprio bem-estar:

  1. Explora Recursos e Tecnologia: Utiliza aplicações de gestão de tarefas, lembretes de medicação e plataformas de comunicação para te manteres organizado(a). Em Portugal, informa-te sobre os apoios sociais existentes para cuidadores informais.
  2. Estabelece Limites e Prioridades: É impossível fazer tudo na perfeição. Define o que é mais urgente e importante. Aprende a dizer “não” a pedidos que não são essenciais e a delegar tarefas sempre que possível.
  3. Comunicação Aberta em Família: Conversa abertamente com o teu cônjuge, filhos e, se possível, com os teus pais. Envolve outros membros da família, como irmãos, na partilha de tarefas e responsabilidades. A criação de um calendário partilhado pode ser uma ferramenta útil.
  4. Cuida de ti: Não te esqueças que, para cuidar dos outros, precisas de estar bem. Reserva tempo para as tuas próprias atividades e interesses. Pratica exercício físico regularmente, alimenta-te de forma saudável e garante horas de sono suficientes. A tua saúde mental e física é uma prioridade.
  5. Procura Apoio Externo: Não hesites em procurar ajuda. Isto pode incluir a contratação de cuidadores profissionais, a procura de grupos de apoio para cuidadores ou a consulta de um psicólogo para ajudar a lidar com o stress e a ansiedade.

Para as empresas, apoiar estes colaboradores não é apenas um ato de responsabilidade social, mas um investimento estratégico na saúde, lealdade e produtividade da sua força de trabalho.

O papel crucial das empresas: apoiar para reter talento

As empresas têm um papel fundamental no apoio aos seus colaboradores da geração sanduíche. Ignorar esta realidade significa arriscar a perda de funcionários experientes e valiosos, afetados pelo burnout e pela impossibilidade de conciliar a vida profissional com as suas responsabilidades familiares. As boas práticas empresariais vão muito além do cumprimento dos mínimos legais.

Em Portugal, o Estatuto do Cuidador Informal (Lei n.º 100/2019) já confere direitos importantes aos trabalhadores-cuidadores (cuidador informal não principal).

Neste caso, o trabalhador cuidador, ou seja, a pessoa que tenha o estatuto do cuidador informal não principal e exerça outra profissão, tem os seguintes direitos:

  • licença anual de 5 dias seguidos para assistência à pessoa cuidada
  • teletrabalho, horário flexível ou tempo parcial
  • 15 dias de faltas justificadas para assistência à pessoa cuidada 
  • proteção contra o despedimento e discriminação
  • dispensa da prestação de trabalho suplementar.

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Para além destas obrigações legais, as empresas podem e devem ser proativas, implementando um ecossistema de apoio que demonstre uma verdadeira preocupação com o bem-estar dos seus colaboradores:

  • Flexibilidade Real: Promover uma cultura de trabalho baseada na confiança e nos resultados, e não nas horas passadas no escritório. A possibilidade de ajustar horários e de trabalhar remotamente é um dos apoios mais valorizados.

  • Programas de Apoio aos Colaboradores ou Employee Assistance Programs (EAPs): Oferecer acesso confidencial a serviços de aconselhamento psicológico, mentoria, financeiro e jurídico. Além disso, podem também incorporar no seu calendário de atividades, formações, workshops, palestras e eventos relacionados com parentalidade, cuidados e conciliação entre vida familiar e profissional.

  • Sensibilização e Formação para Gestores: Capacitar as lideranças para que saibam identificar os sinais de sobrecarga nos membros das suas equipas e para que possam abordar o tema com empatia e de forma construtiva.

  • Criação de Grupos de Apoio Internos: Facilitar a criação de redes de contacto entre colaboradores que estão a passar pela mesma situação, permitindo a partilha de experiências e de soluções práticas.

  • Benefícios e Parcerias: Estabelecer parcerias com serviços de apoio domiciliário, creches ou centros de dia, oferecendo condições mais vantajosas aos seus funcionários. Além disso, as empresas podem reunir esforços para garantir um local físico de trabalho com condições mais favoráveis à família, como por exemplo, creche no local de trabalho ou sala de extração de leite materno.

A geração sanduíche não é um problema individual, mas um reflexo das nossas sociedades em mudança. Reconhecer os seus desafios e criar redes de apoio, tanto a nível pessoal como profissional, é essencial para garantir o bem-estar de quem, dia após dia, se desdobra para cuidar de quem mais ama.

Para as empresas, apoiar estes colaboradores não é apenas um ato de responsabilidade social, mas um investimento estratégico na saúde, lealdade e produtividade da sua força de trabalho.

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