Fundadora do projeto Mães às Claras.
Um estudo dinamarquês com mais de 500 crianças mostra que não é a quantidade total de tempo de ecrã que mais importa nos primeiros anos de vida. É a solidão. E, para as crianças com atrasos de linguagem, bastam 10 a 30 minutos por dia de ecrã a sós para amplificar problemas de comportamento.
Durante mais de uma década, as recomendações sobre tempo de ecrã para crianças pequenas giraram em torno de um conceito simples: menos é melhor. As diretrizes da Academia Americana de Pediatria e de outras organizações privilegiaram a redução de horas, desenhando limites máximos diários.
Mas a investigação mais recente — e sobretudo um estudo publicado em março de 2026 na revista científica Research on Child and Adolescent Psychopathology — sugere que esta métrica pode estar a desviar a atenção para o lado errado do problema.
O que parece fazer diferença no desenvolvimento das crianças não é apenas o relógio. É a companhia.
O estudo, conduzido por uma equipa internacional da Florida Atlantic University e da Universidade de Aarhus (Dinamarca), acompanhou 546 crianças de 4 e 5 anos em 24 creches e jardins-de-infância distribuídos por 13 municípios dinamarqueses.
Os investigadores avaliaram as competências de linguagem e vocabulário das crianças, o seu comportamento social e emocional, e pediram aos pais que registassem detalhadamente quanto tempo os filhos passavam sozinhos em frente a um ecrã — fosse televisão, tablet ou telemóvel.
Seis meses depois, repetiram as avaliações comportamentais.
Os resultados desenharam um padrão claro e, em muitos aspectos, contra-intuitivo. Crianças com dificuldades de comunicação e vocabulário produtivo mais reduzido desenvolveram significativamente mais problemas de comportamento ao longo dos seis meses — mas apenas entre as que passavam tempo considerável sozinhas com ecrãs.
O limiar a partir do qual este efeito ficou visível foi surpreendentemente baixo: entre dez e trinta minutos por dia, em média, ao longo da semana. Não horas. Dezenas de minutos. O suficiente para transformar uma fragilidade inicial de linguagem num problema comportamental mais consistente.
Ler também: O teu bebé passa demasiado tempo ao ecrã? 5 estratégias para reduzir a atração do digital
A explicação que os investigadores propõem ilumina um mecanismo pouco discutido no debate sobre ecrãs.
Laursen utiliza um modelo económico para explicar os resultados. Os economistas definem os custos de oportunidade como as perdas associadas a uma escolha. Se um adulto ficar acordado até tarde a ler um livro, o custo de oportunidade da leitura é uma boa noite de sono.
“Os custos de oportunidade do tempo solitário em frente aos ecrãs podem ser particularmente elevados para os jovens vulneráveis. As crianças têm um número finito de horas livres por dia”, disse Laursen.
“Cada hora que uma criança passa sozinha com um dispositivo é uma hora em que não está envolvida em interações sociais que impulsionam as competências linguísticas. É uma hora que não é dedicada à prática das competências socioemocionais necessárias para construir amizades. Os ecrãs não exigem compromissos, partilha ou diálogo – exatamente as competências que as crianças com dificuldades de comunicação precisam de praticar.”
Brett Laursen, professor de psicologia da Florida Atlantic University
Para uma criança pequena com dificuldades de linguagem, o dia-a-dia oferece múltiplas oportunidades de compensação social: conversas com pais, disputas e reconciliações com irmãos, trocas com educadores, interações com outras crianças no recreio.
Estes momentos de “vai-e-vem” linguístico e emocional não são apenas treino de vocabulário; são também um terreno onde as crianças aprendem a regular frustrações, a interpretar pistas sociais e a modular o próprio comportamento.
Quando uma parte substancial do tempo livre é preenchida por ecrãs em solitário, estas oportunidades desaparecem — precisamente para as crianças que mais delas precisavam.
Brett Laursen, professor de psicologia da Florida Atlantic University e autor sénior do estudo, sintetiza o fenómeno de forma directa: o tempo de ecrã sem supervisão “fecha oportunidades de envolvimento social que poderiam mitigar os riscos comportamentais que decorrem de problemas de linguagem”.
Não se trata, portanto, de o ecrã causar o problema. Trata-se de o ecrã a sós eliminar a oportunidade de atenuar um problema já existente.
Esta descoberta tem implicações práticas importantes para as famílias.
Em primeiro lugar, sugere que contar apenas minutos pode estar a falhar o alvo: duas crianças com o mesmo tempo total de ecrã podem ter experiências de desenvolvimento radicalmente diferentes se uma o consome ao colo de um adulto que comenta o que acontece no ecrã, e a outra sozinha no quarto.
A presença de um adulto ou de outra criança a partilhar o conteúdo transforma o ecrã numa ocasião de linguagem; a sua ausência transforma-o num muro.
Em segundo lugar, desafia a ideia de que os ecrãs são um problema apenas em grandes doses. Para crianças já em situação de vulnerabilidade linguística — e recorde-se que uma parte considerável das crianças europeias em idade pré-escolar apresenta atrasos ligeiros ou moderados de desenvolvimento da fala —, mesmo consumos que a maioria dos pais considera “moderados” podem amplificar riscos.
Ler também: Férias escolares: 20 brinquedos para crianças ao ar livre
A mensagem para quem está a criar filhos pequenos é, no essencial, de alívio e de responsabilidade em partes iguais.
Alívio porque o estudo não demoniza o uso de ecrãs por si só. Aliás, os autores afirmam que o conteúdo de alta qualidade tem benefícios comprovados para as crianças, especialmente à medida que crescem.
Responsabilidade porque, para famílias onde a criança já demonstra fragilidades na linguagem, o tempo de ecrã sozinho é, aparentemente, uma variável sobre a qual vale a pena intervir — antes que os minutos se transformem em hábitos, e os hábitos em trajetórias.
E infelizmente, quando deixadas por conta própria, muitas crianças pequenas preferem conteúdos rápidos, breves e altamente estimulantes, alguns dos quais podem ser inadequados para a sua idade.
“Os meios eletrónicos são parte integrante do ambiente de aprendizagem em casa; muitas crianças passam mais tempo com tablets e telemóveis do que com brinquedos, livros e amigos”.
Molly Selover, autora principal e doutoranda em psicologia na FAU
“Tal como outros riscos do ambiente doméstico, o tempo passado sozinho em frente aos ecrãs representa um perigo singular para as crianças pequenas com maior vulnerabilidade. Os adultos tendem a considerar os ecrãs como distrações agradáveis e podem usá-los como babysitters convenientes. Mas, para as crianças em idade pré-escolar com dificuldades linguísticas, o tempo sem supervisão em frente aos ecrãs não é inofensivo – pode ser uma barreira ativa ao bem-estar.” – diz Selover.
Os autores reconhecem que as suas descobertas podem não ser populares. Os ecrãs são omnipresentes no dia a dia. Ainda assim, incentivam os pais a observarem atentamente a forma como as crianças pequenas interagem com os ecrãs.
“As descobertas são importantes porque mostram que um risco ambiental muito comum – o tempo excessivo passado sozinho em frente aos ecrãs – pode agravar os desafios comportamentais e de conduta em crianças que já enfrentam um desenvolvimento difícil”, disse Selover.
Ler também: Sugestões de brinquedos para crianças de 3 anos
Fonte: Leggett-James, M. P., Højen, A., Bleses, D., & Laursen, B. (2026). ““Solitary Screen Time Exacerbates Later Socioemotional Problems in Young Children with Oral Language Difficulties”. Research on Child and Adolescent Psychopathology. Florida Atlantic University e Universidade de Aarhus.
Fundadora do projeto Mães às Claras.
































































