Ser mãe não me apagou a ambição. Recalibrou-a

ana cláudia santos cortez
Ana Cláudia Santos-Cortez
Chief of Staff at Feedzai |  + posts

Ana Cláudia Santos-Cortez é Chief of Staff no departamento de Produto e Tecnologia na Feedzai, e Coach executiva certificada pela International Coaching Federation. Cresceu numa pequena vila do interior, mudando-se para o Porto em 2011 (onde vive desde então, hoje com o marido e o filho de 3 anos), e construiu uma carreira que a aproximou das salas onde se decidem coisas que importam. Está a escrever um livro sobre o papel de Chief of Staff e sobre o que custa estar perto do poder sem nunca se perder a si própria.

Há uma narrativa que ouvi com mais frequência do que gostaria desde que fui mãe: que a maternidade aquieta naturalmente a ambição.

Que o nascimento de um filho redefine prioridades de tal forma que a vontade de crescer profissionalmente passa, suavemente, para segundo plano.

Que se torna, finalmente, possível desacelerar — porque agora há algo mais importante a ocupar o lugar que a carreira ocupava antes.

A minha experiência foi outra. E suspeito que a de muitas mulheres também.

Quando regressei ao trabalho cinco meses e meio depois do nascimento do meu filho, com a redução de horário a que tinha direito legalmente em Portugal por estar a aleitar, esperava sentir-me dividida — talvez aliviada por trabalhar menos horas.

O que não esperava era reconhecer, com alguma vergonha, que voltar a um ambiente que exigia esforço cognitivo me devolveu uma parte de mim que tinha ficado em pausa.

Em casa, eu improvisava num mundo novo, sem manual de instruções. No trabalho, eu sabia o que fazer. Esse contraste foi, durante semanas, a coisa mais reconfortante do meu dia. E, ao mesmo tempo, a mais incómoda de admitir (quereria isto dizer que eu não sabia ser mãe?).

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Disse a mim própria, durante meses, que estava confortável com uma pausa na progressão de carreira. Que a maternidade exigia esse compromisso. Que a ambição podia esperar.

Mas a verdade veio à superfície depressa: a familiaridade laboral começou a parecer-me confinamento. Não me bastava executar. Queria desenhar. Queria liderar. Queria estar próxima das decisões que moldavam o que estava a ser construído à minha volta.

Esta é a parte que poucas mulheres dizem em voz alta — e percebo porquê.

Admitir que continuamos ambiciosas depois de sermos mães parece, em certos contextos, uma falha de carácter. Como se querermos crescer profissionalmente significasse, automaticamente, querermos menos os nossos filhos.

Aprendemos a vestir a ambição com pedidos de desculpa, a escondê-la atrás de justificações pragmáticas — “preciso do salário”, “é só por uns tempos”, “depois abranda” — em vez de a reconhecer simplesmente como o que é: uma parte legítima de quem somos.

Há, porém, uma armadilha do lado contrário.

A narrativa do “tudo é possível”, da supermãe que equilibra carreira ascendente, casa impecável, casamento próspero e desenvolvimento pessoal, é tão tóxica quanto a anterior. 

Marion Woodman, psicanalista que dedicou a obra a estudar a forma como as mulheres ocidentais se relacionam com o ideal de perfeição, escreveu: “Se vives para um ideal e te empurras o mais possível para seres perfeita — no trabalho, como mãe, ou como esposa perfeita — perdes o ritmo lento e natural da vida.”1

O ritmo lento que ela descreve — esse estado em que simplesmente somos — foi o primeiro a desaparecer.

Nada do que vivi nos primeiros dois anos depois de ser mãe foi equilibrado. Foi sacrificado.

Houve sustentação familiar reconfigurada, um marido que assumiu o papel de cuidador principal durante um período em que esteve desempregado. Houve dias em que o chapéu do papel de mãe coube melhor do que o de profissional, mulher, amiga, filha, e vice versa. Houve culpa, exaustão, e momentos em que olhei para o meu filho a dormir e me perguntei se estava a fazer escolhas das quais ele se viria a orgulhar — ou a ressentir.

A honestidade que falta nesta conversa é esta: a ambição depois da maternidade não significa que a maternidade não chegou. Significa que a maternidade não é a única coisa que somos. E reconhecer isso não nos torna menos mães — torna-nos mais inteiras.

Crescemos a ver mães que se anularam — não porque quisessem, mas porque o contexto em que viviam não lhes oferecia outra hipótese.

A minha mãe é uma dessas mulheres ao ter-lhe sido negado o direito de estudar, como queria, para ser forçada a trabalhar no campo ainda pré-adolescente. Tenho a certeza de que, em condições diferentes, teria liderado organizações. Talvez uma cidade. A geração dela pagou um preço que a minha não tem de pagar — e esse é, em parte, o sentido de toda a luta que veio antes de nós.

Mas herdar mais opções não significa herdar menos culpa. A culpa não desaparece só porque a lógica faz sentido.

E é precisamente aí que vejo tantas mulheres da minha geração presas: ambiciosas, mas a pedir desculpa pela ambição. A escolher a versão mais discreta de si próprias, em vez da versão mais verdadeira.

Há ainda uma camada que raramente se diz em voz alta: querer mais, depois de sermos mães, não é apenas uma decisão pessoal — é um acto que entra em rota de colisão com pressupostos que não foram construídos a pensar em nós. 

O estudo de Shelley Correll, Stephen Benard e In Paik, Getting a Job: Is There a Motherhood Penalty?, publicado no American Journal of Sociology 2 em 2007, mostrou-o de forma inequívoca.

Quando os investigadores enviaram a empregadores reais currículos idênticos, alterando apenas o estatuto parental dos candidatos, as mães foram percepcionadas como menos competentes e menos comprometidas, recomendaram-lhes salários iniciais mais baixos, e mulheres sem filhos foram 8,2 vezes mais propensas a serem recomendadas para cargos de gestão do que mães com qualificações equivalentes. Os pais, no mesmo estudo, beneficiaram do estatuto parental.

Tara Mohr, em Playing Big, resume bem a consequência psicológica deste padrão: ‘Diversos estudos mostram que, devido a um viés subtil, as mulheres têm de ter um desempenho melhor do que os seus pares masculinos para serem percebidas como desempenhando ao mesmo nível.’

Quase duas décadas depois, replicações sucessivas continuam a confirmar o padrão.

Por isso, a confiança que precisamos de construir depois de sermos mães não é um luxo — é uma ferramenta de trabalho.

Confiança aqui não é a postura de quem entra numa sala convencida de que sabe tudo. É algo mais quieto e mais difícil. É candidatares-te ao papel mais exigente apesar de saberes que vais ter de provar duas vezes que mereces. É pedires o aumento sem o vestires de pedido de desculpa. É dizeres “consigo fazer isso” antes de teres a certeza absoluta — porque aos teus pares masculinos essa hesitação raramente lhes é exigida.

Quando o meu filho tinha oito meses, facilitei uma reunião de liderança em Londres. Era mais nova e menos experiente do que toda a gente na sala, sem qualquer autoridade formal sobre os presentes, e tinha a sensação clara de estar a ocupar um lugar que ainda não tinha conquistado. Aceitei mesmo assim — pedindo à minha mãe que apoiasse o meu marido em casa enquanto eu viajava em trabalho pela primeira vez desde que era mãe. Não me arrependi. Voltei com a ambição de levar essa oportunidade a sério e inscrevi-me numa especialização pós-laboral de coaching executivo e de performance.

Isto não aconteceu porque a reunião em Londres correu excepcionalmente bem mas porque entendi, naquele momento, que esperar pela permissão é um luxo que poucas de nós podemos pagar.

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Há também uma dimensão que raramente se discute: o que acontece dentro de casa quando uma mãe decide não desacelerar. Não funciona se for uma decisão tomada sozinha.

A minha progressão profissional só foi possível porque o meu marido entendeu, sem precisar que lho explicasse vinte vezes, que cuidar de um filho não é “ajudar” — é tão papel dele quanto o meu. E porque, durante uma fase difícil para ele, reconfiguramos os papéis tradicionais sem que isso ferisse o orgulho de nenhum dos dois. Não foi romântico, foi estratégico e foi o acto mais maduro que construímos enquanto casal.

A pergunta que me faço hoje — e que deixo às mulheres que se reconhecem nesta tensão — não é “como conciliar tudo?”. Essa pergunta está mal colocada e leva, invariavelmente, ao mesmo beco sem saída. A pergunta certa é mais incómoda: o que estás disposta a deixar cair, sem te desculpares, para construíres a vida que queres?

Quem estás confortável em deixar de tentar agradar (de vez ou temporariamente)?

Que parte da tua ambição estás a esconder, mesmo de ti própria, porque ainda achas que ser mãe te obriga a fazê-lo?

O que é que precisas para ser inteira? (Recomendo muito a leitura do livro ‘Drop the Ballde Tiffany Dufu!).

Não te vou dizer que é fácil. Não é. Mas a alternativa — viver uma versão diluída de ti, em nome de um equilíbrio que ninguém realmente alcança — também tem um custo. Só que esse custo aparece mais tarde, quando já é mais difícil corrigir.

A maternidade não me apagou a ambição. Recalibrou-a. E acredito que, para muitas de nós, esta é a história mais honesta que ainda temos por contar.

Referências:

  1. Marion Woodman, em Conscious Femininity: Interviews with Marion Woodman (Inner City Books, 1993).
  2. Shelley J. Correll, Stephen Benard & In Paik, “Getting a Job: Is There a Motherhood Penalty?”, American Journal of Sociology, vol. 112, n.º 5 (2007), pp. 1297-1339.
ana cláudia santos cortez
Ana Cláudia Santos-Cortez
Chief of Staff at Feedzai |  + posts

Ana Cláudia Santos-Cortez é Chief of Staff no departamento de Produto e Tecnologia na Feedzai, e Coach executiva certificada pela International Coaching Federation. Cresceu numa pequena vila do interior, mudando-se para o Porto em 2011 (onde vive desde então, hoje com o marido e o filho de 3 anos), e construiu uma carreira que a aproximou das salas onde se decidem coisas que importam. Está a escrever um livro sobre o papel de Chief of Staff e sobre o que custa estar perto do poder sem nunca se perder a si própria.