Sentes culpa por tudo? Uma neurocientista explica o que podes fazer para silenciar a culpa materna.

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Fundadora do projeto Mães às Claras.

A culpa materna não é uma falha de caráter. É uma resposta do cérebro. Uma neurocientista de renome explica por que razão essa voz implacável não é culpa tua — e o que podes, de facto, fazer para a calar.

Se alguma vez te sentiste uma má mãe por dares cereais ao jantar, por gritares com os teus filhos quando já estavas à beira de um ataque de nervos, ou por fingires entusiasmo ao assistir pela milésima vez à performance do “mãe, olha para mim” — sabe que não estás sozinha.

Um novo estudo americano realizado pela Teleflora revelou que 91% das mães sentem culpa materna, e quase três em cada quatro admitem preocupar-se, pelo menos de vez em quando, por acharem que não estão a fazer o suficiente pelos filhos. Entre as mães da geração millennial, esse número sobe para os 95%.

Temos tendência a tratar a culpa materna como uma falha de caráter. Algo que temos de aguentar ou pelo qual nos devemos desculpar silenciosamente. Mas a Dra. Kyra Bobinet, médica e uma das maiores especialistas mundiais em neurociência da motivação e do comportamento, afirma que esta abordagem não está apenas errada — está, ativamente, a piorar as coisas.

A culpa que sentes não nasce de uma verdade profunda sobre quem és como mãe. Vem de uma pequena estrutura no teu cérebro que está a fazer o seu trabalho com um entusiasmo exagerado.

Existe um “detetor de falhas” no teu cérebro

Profundamente escondida no cérebro, encontra-se uma pequena região chamada habénula. Pensa nela como um sistema de alarme integrado, desenhado para notar quando algo correu mal — um erro, uma rejeição, um momento em que ficamos aquém das expectativas.

Quando a habénula dispara, reduz drasticamente a nossa motivação, o nosso humor e a nossa sensação de esperança. Sabes aquele desânimo profundo que sentes logo após perderes a paciência com o teu filho? É exatamente isso.

Este sistema existe em toda a gente. O que o torna diferente nas mães é tudo aquilo que se lhe sobrepõe: a programação biológica que faz com que o bem-estar do nosso filho pareça o nosso próprio bem-estar, somada a uma cultura que exige das mães um padrão que nenhum ser humano conseguiria alcançar.

“A mãe experiencia isto como: ‘Sou uma má mãe’. Mas, nos bastidores, é apenas um circuito cerebral a fazer o que sempre faz quando acha que falhou.”

Dra. Kyra Bobinet

“A culpa materna é o que acontece quando esse circuito é repetidamente ativado por pensamentos de fracasso — imposições do género ‘eu devia’, sentimentos de ‘não ser suficiente’ e comparações constantes — acumulados sobre as intensas expectativas culturais da maternidade”, afirma a Dra. Bobinet.

Por que razão uma autorização esquecida parece a prova de que falhou

O alarme de falha do cérebro não se ajusta à gravidade real do problema. Ajusta-se, sim, ao significado que a tua narrativa interna atribui a esse problema.

“Se a tua narrativa interna for ‘as boas mães planeiam sempre tudo com antecedência, cozinham refeições equilibradas e nunca vacilam’, então até os pequenos deslizes são registados como uma prova de que estás a falhar na maternidade”, explica a Dra. Bobinet. O cérebro não está a reagir aos cereais ao jantar. Está a reagir à ideia de que ‘isto significa que sou uma má mãe’, o que ele interpreta como uma ameaça à tua identidade e ao teu sentimento de pertença. Isso desencadeia um alarme total, independentemente do que realmente aconteceu.

O hábito de fazer scroll nas redes sociais à noite, comparando-te com os outros, piora a situação. Ao veres imagens de mães que parecem ter a vida perfeitamente controlada, estás a alimentar precisamente a parte do cérebro que já está programada para procurar provas de que não estás à altura.

Ler também: A insanidade da maternidade na sociedade atual: o equilíbrio impossível entre mãe/humana

Tentar mais não resolve o problema

A maioria das mães responde à culpa fazendo ainda mais — mais atividades, mais esforço, menos descanso. A Dra. Bobinet afirma que esta é uma das partes mais cruéis do ciclo, porque simplesmente não funciona. Padrões impossíveis levam a deslizes inevitáveis. Os deslizes geram culpa. A culpa impulsiona uma compensação exagerada. O cansaço cria mais erros. E esses erros tornam-se novas provas para a narrativa de que não tens jeito para isto.

“Quanto mais ela tenta superar a culpa através do desempenho, mais falhas o sistema consegue detetar”, sublinha.

O discurso interno duro — aquela voz irritante que diz “ganha juízo” — mantém o alarme ativo. O mesmo acontece quando fazes promessas drásticas a ti mesma, como “nunca mais vou levantar a voz”. Isso só eleva a fasquia para a próxima vez que falhares. (Porque este papel é difícil e, inevitavelmente, vais falhar).

“Quanto mais usamos a culpa como uma ferramenta para sermos ‘melhores’, mais treinamos o detetor de falhas para disparar com frequência e intensidade.”

Dra. Kyra Bobinet

O que realmente ajuda

O cérebro tem a capacidade de mudar. Segundo a Dra. Bobinet, reestruturar consistentemente o discurso interno negativo e mudar o foco de “isto prova que sou uma má mãe” para “isto não correu bem, o que posso tentar de forma diferente?” altera, com o tempo, a forma como o cérebro processa o fracasso. Não acontece da noite para o dia, mas sim com a repetição.

A Dra. Bobinet chama a isto a Mentalidade Iterativa: tratar a maternidade menos como um desempenho no qual podemos passar ou chumbar, e mais como uma experiência contínua. Tentar algo. Aprender. Ajustar. “Quem adota uma abordagem iterativa nunca falha”, afirma. “Não se supõe que acertes na maternidade à primeira tentativa. Supõe-se que aprendas ao longo do caminho.”

O sono e o descanso importam mais do que a maioria das mães imagina. Não devemos encará-los como um luxo, mas sim como algo que afeta diretamente a reatividade e a resiliência do cérebro. Além disso, a investigação sugere que a ligação afetiva e as brincadeiras ativam os mesmos circuitos de recompensa que apoiam uma parentalidade saudável. A recuperação não é egoísmo. É, na verdade, uma forma de proteção.

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A mudança de perspetiva

“A voz que diz ‘estás a falhar’ não é o teu verdadeiro eu”, afirma a Dra. Bobinet. “É um padrão de conexões cerebrais combinado com expectativas culturais. A mesma pequena estrutura que te protege de repetir erros está também a analisar a tua vida diária através de uma lente perfecionista.”

A especialista quer ainda que as mães saibam algo que costuma perder-se no meio de tudo isto: sentir a culpa com esta intensidade é, geralmente, um sinal do quanto nos importamos, e não uma prova de que estamos a falhar. O desapontamento, o desânimo e o receio latente de não ser suficiente são sinais para reajustar a rota, e não veredictos sobre o teu valor como mãe.

A própria Dra. Bobinet ainda sente isto, mesmo agora que os seus filhos já são adultos. O que mudou foi a forma como reage. “Agora reconheço as sensações — o peso, a urgência, o sentimento de ‘não ser suficiente’ — como a ativação de um circuito específico, e não como uma prova de que sou uma má mãe.”

Assim que compreendemos isto, a pergunta muda de figura.

Em vez de “o que há de errado comigo?”, começa a perguntar: “o que ajuda o meu cérebro a trabalhar a meu favor e não contra mim?”.

Esta não é uma mudança menor. É tudo.

Sobre a Dra. Kyra Bobinet
A Dra. Kyra Bobinet (MD-MPH) é médica, líder em saúde pública e designer de mudança de comportamento. É a principal especialista mundial na neurociência aplicada da habénula e autora do livro Unstoppable Brain: The New Neuroscience That Frees Us From Failure, Eases Our Stress, and Creates Lasting Change (Cérebro Imparável: A Nova Neurociência que nos Liberta do Fracasso, Alivia o Nosso Stresse e Cria Mudanças Duradouras).

Fonte: Artigo originalmente publicado em Motherly

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